segunda-feira, 25 de abril de 2011

"Bom dia"

Chego da escola e sempre me olha com aquela cara estranha. No fundo, isso me dá uma grande revolta. Meu pai finge que não liga mais, que já se acustumou com a falta de interesse dela pelas nossas coisas. Mas eu sei que isso não funciona assim, que essa compaixão dele não é tão intensa. Minha vida tinha tudo pra ser perfeita. Amigos maravilhos, uma escola ótima e um ensino de qualidade. Mas penso que isso tudo não passa de lixo quando não posso compartilhar isso com a pessoa mais importante.

Sempre tão concentrada em suas coisas, sempre tão ocupada e não está nem aí. Era para sermos amigas, e até confidentes. Acaba não sendo nada disso e isso me revolta.

Vejo que não adianta de nada ter uma vida perfeita quando o que se mais precisa não está ali, eu gosto de ir à praia, ela não. Eu gosto de escrever e ler, compartilhar os meus objetivos. Não dá.

Vou direto para meu quarto e lá continuo pelo resto da noite, trancada. Revoltada, imaginando como tudo seria se ela não fosse assim. Queria que fosse diferente, podiamos ir passear no shopping e tomar sorvete em dias quentes. Não dá.

Se soubesse, eu veria um sorrisso dia após dia. Ela só critica e é criticada, não aguento mais isso. Ela passa todos os dias aqui e quando chego, o minimo de atenção que deveria ter, não tenho. Devo ser muito incapaz. Incapaz de faze-la gostar de mim pelo que sou, incapaz de criar interesse dela por mim. Aonde já se viu, ela não sabe o meu nome direito, só sabe aonde estudo porque é debitado todo mês. Não sabe nem a data do meu aniversário direito. Não dá.

Ela podia entrar aqui no quarto e brigar comigo. Podia entrar sem bater e reclamar do quão ausente eu sou, ela pode colocar a culpa em mim, não vou ligar. Ela pode entrar, chorar, gritar e pedir pra que eu mesma nunca a esqueça. Ela podia brigar sem ser convocada. Gritar as verdades, que na verdade, não quero ouvir. Ela pode jogar tudo o que a irrita nas minhas costas, eu carrego pra ela, se isso a fizer se sentir melhor..

- QUE DROGA! Falo comigo mesma. - Não dá, não dá, não dá.

Resolvo sair cambaleando do meu quarto para beber alguma coisa, olho pra ela e ela ainda está ali, no mesmo lugar, reclamando da vida e de todos. Achando tudo ruim, sem entender nada.

 A campainha toca, é ele de novo. Um sentimento de raiva sempre me toma quando ele chega. Não sei se é ciumes, se eu queria estar no lugar dele.. De verdade, só queria poder entender quanto como ele parece entender. Essas rotinas tão repentinas me deixam louca. E esse ritual que se segue, pior ainda. Ele vem e eles conversam um pouco, escrevem algumas coisas e pronto. E ela não está em aí, vive sorrindo como se nós não sofressemos.
Além de tudo e de todos, o mais me irrita acaba sendo o que se passa aqui dentro. Na minha mente e no meu coração. Não posso negar, é para sempre. Por todos os dias da minha vida. Fico enojada por achar que não há possibilidades. Como não há possibilidades?

Eu sinto, tão intensamente.

Amor, compreensão, carinho e vontade de poder dar cada dia mais, mesmo sem receber em troca.  Lavar a louça, lavar a roupa, fazer a comida. Não me importo, quero que ela esteja aqui, somente isso. Sei o quanto me revolta essa situação e o quanto me assusto por te-la e ao mesmo tempo não te-la por perto. Choro todas as noites, dia após dia, fico irritada e reclamo muito da vida.

 Mas não posso negar pra mim mesma que quando deito pra dormir eu torço somente que ela esteja ali de manhã. Torço para que ela acorde curada desse Alzheimer, para que ela me reconheça, para que ela venha me acordar, dizendo:

“Bom dia, filha!”